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Nova publicação de António Salvado


Foi com imensa alegria que recebi ontem a última publicação do meu Velho Amigo António Salvado. É bom ainda ter Amigos que não se esquecem de nós, e infelizmente há tão poucos. Trata-se pois de um livro de poesias, das quais aqui deixo uma, que tem a ver com a minha paixão, e para aguçar o apetite de quem visita este Blog.


A POESIA COMO BILHETE DE IDENTIDADE



Hoje é o Dia Internacional da Poesia. Editamos, e não nos vão levar a mal pelo facto, um magnífico texto retirado da revista Viver de autoria de Elsa Ligeiro, editora, animadora e impar divulgadora dos valores culturais da Beira. Substituímos do título original, a palavra Cultura pela palavra Poesia. Desculpem o arrojo Se tivesse colocado economia é que sería grave. À Elsa Ligeiro, a quem dedicaremos um próximo post, um grande bem-haja por nos relembrado toda a profundidade associada às paisagens e a todas as pequenas e grandes coisas destas terras do rei Wamba pela pena de dois dos ‘nossos’ poetas.

«Em qualquer parte do mundo o valor da cultura é inalterável e aumenta com o tempo. É ela que diferencia, acrescenta, e comunica com parte importante do futuro, através da memória. Cada região só se afirma através da sua cultura. No campo económico ela pode competir melhor, ou pior, segundo capacidades apreendidas, seja através da formação, seja da inovação, mas em moldes perfeitamente uniformizados e adquiridos. Só no campo cultural a sua história, a sua geografia, a sua memória, a sua capacidade de preservar de preservar uma identidade são uma riqueza única que não encontra qualquer campo de confrontação. É por isso que hoje regiões que apostam eficazmente na cultura, ancestral e única, têm uma forte fonte de rendimento, trabalho e de desenvolvimento. (…) No campo literário, e na Beira Baixa, há todo um mundo de possibilidades por realizar. É através da língua que chegam as histórias de mouras, bruxas e lobisomens e as lendas de encantar.

Jaime Lopes Dias dedicou parte da sua vida à recolha e fixação em texto desses prodígios de invenção que são os contos, as lendas e as crenças populares, especialmente as da Beira Baixa.

É graças ao seu trabalho laborioso e apaixonado que temos hoje ao dispor, em qualquer biblioteca, parte do reino maravilhoso dos lugares, dos nomes de localidades e de devoções ainda hoje cumpridas religiosa e anualmente.

Este é um património da Beira Baixa que podemos partilhar com todos e das mais diversas formas. Um festival de tradição e criação oral, por exemplo, é uma das possibilidades que a nossa região ainda não desenvolveu.

E que dizer da Beira mítica que o Fernando Namora nos deixou?

E que criação espantosa de imagens da Beira nos dá a poesia de Eugénio de Andrade e António Salvado?

Diz Eugénio de Andrade no seu poema em prosa Infância:

Saio de casa para ver os estorninhos; não têm conta a esta hora da tarde, em revoadas sucessivas sobre as árvores. Quando a noite cai já estou de volta, o olhar atravessado por rápidos fulgores. A luz é tudo o que trago comigo, porque também eu tenho medo do escuro.

Escreve António Salvado no seu poema Manhã:

Manhã. Árvore aves tudo se acasala: / o ribeiro sussurra a madrugada, o sol insinuando nas ramagens / anuncia prazer felicidade. // E sorvo aquele aceno sequioso/ da mão amiga vinda ao meu encontro:/ a saudação é salvação e logo / o serenar das horas se prolonga. // O meu canto acetina de giestas, / veraneia na flor do rosmaninho – / e come pão de trigo ou de centeio / e bebe um terço d’água e dois de vinho.

Qual o valor do sol, da frésia, da urze, da giesta, do rosmaninho, depois da leitura da Poesia de Eugénio de Andrade e António Salvado? Incalculável. »

Elsa Ligeiro

Proprietária da Editora A Mar Arte e da produtora de actividades culturais Alma Azul

A Paixao das Árvores

(Benasque - Aragon)

(Benasque - Aragon)


(Sant Llorenç - Catalunya)

The tree which moves some to tears of joy is in the eyes of others only a green thing that stands in the way. Some see Nature all ridicule and deformity, and some scarce see Nature at all. But to the eyes of the man of imagination, Nature is Imagination itself.

William Blake, 1799, The Letters

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade

Her Triumph

I did the dragon's will until you came
Because I had fancied love a casual
Improvisation, or a settled game
That followed if I let the kerchief fall:
Those deeds were best that gave the minute wings
And heavenly music if they gave it wit;
And then you stood among the dragon-rings.
I mocked, being crazy, but you mastered it
And broke the chain and set my ankles free,
Saint George or else a pagan Perseus;
And now we stare astonished at the sea,
And a miraculous strange bird shrieks at us.
excerto de A Woman Young and Old
by William Butler Yeats


(foto tirada em Benasque nos Pirineos Catalanes)

Deuses encontrados durante um passeio cibernético

Andei a vaguear pela internet e numa pesquisa que fiz encontrei, e devo dizer que com especial agrado, um poema inspirado na mitologia lusitana. Fiquei surpreendida. Mas contente. Aqui têm O Êxodo dos Deuses.

Lembrei-me duma conversa que tive com uma rapariga espanhola que estuda teatro aqui no Institut del Teatre. Vinha duma aula de Teatro Clássico e comentava-me que adorava a matéria pelo facto de que isso possibilitava estudar mitologia. Perguntei-lhe se conhecia algum outro panteao que nao o grego ou o romano. Respondeu-me que conhecia alguma coisa do panteao celta. Surpreendeu-se quando lhe disse que aqui na peninsula ibérica tambem existiam divindades indigenas.

Depois, durante a pesquisa, tive tambem o desagradável recordatório de como a busca pelas raizes pode exceder-se ao ponto de se transformar em xenofobia e racismo. E fiquei triste. Como em tudo, o extremismo é um problema...

Coisas de bibliotecas

Ontem fui à biblioteca... Algo que nao fazia muito em Portugal ( a menos que necessitasse consultar aquele livro caríííssimo que havia visto no outro dia na livraria ou alguma publicaçao especifica que só encontras numa estante de biblioteca).

A verdade é que tenho prazer em comprar livros... a busca... o frio no estomago quando encontras o livro que desejavas... pagar o livro e sair com ele dentro do saco de plástico para que assim que poes o pé fora da loja o possas sacar outra vez e folheá-lo... ler aos pouquinhos até chegar a casa - andando, no metro, no eléctrico, no café enquanto esperas alguém... devorar parte na primeira noite... encontrar todos os momentos que possas no dia seguinte, entre tarefas domésticas e trabalho, para terminar de o ler... depositá-lo, bem amachucadinho e com as pontas dobradas, na tua estante, junto com os outros teus livros, igualmente amachucados porque lidos, com aquele orgulho incontrolável de quem terminou uma leitura.

A coisa é bem diferente se depois o tens de devolver à biblioteca. Ou nao? ;P

Bom, sobre a biblioteca. Aqui as bibliotecas têm de tudo e tens um mês para devolver. Comecei a repensar o tema de comprar livros desde que vivo em Barcelona... Nao só ando com a casa e os gatos às costas, esporadicamente mudando de casa, como se para além disso tenho de levar toda uma biblioteca pessoal... Voilá! Percebem o que quero dizer?

Entao resolvi fazer uma seleçao: compro livros relacionados com o estudo, requisito na biblioteca o resto, a saber, poesia, novelas, guias de viagem, etc, etc.

Entao... (como estou tagarela hoje... :s) biblioteca. Fui ontem à biblioteca buscar um guia de viagem da Escócia (se tudo correr bem vou passar uma semaninha em Outubro pelas Highlands) e encontrei algo muito curioso: Alberto Caeiro em catalao.

Crec en el Món com en una margarida,
perquè el veig. Però no hi penso,
perquè pensar és no comprendre...

El Món no ha estat fet per pensar-hi
(pensar és estar malalt dels ulls),
sinó per, en mirant-lo, acordar-m’hi...

Reconhecem este? ;P
Nao, nao, este idioma esquisito nao é dum país desconhecido onde Judas perdeu as botas (botas?! os ditos populares permanecem um mistério). Para os mais distraidos, catalao é o que se fala na Catalunha, regiao onde se encontra Barcelona.